The Ha Ha Walls
Quando eu ouvi o Libertines pela primeira vez eu estava bebado (estou bebado agora). A vida, naquela de fazer justiça, me deu uma segunda chance. Super sóbrio, deixei passar porque estava abusado. Não sei lembrar quando foi a primeira vez que ouvi mais. Foram tantas festas, tantas vezes. Sei que era Can’t Stand me Now que, certa vez, já estava cantando alto. No escuro esfumaçado de alguma boate de quinta categoria. E era muito bom.
As vezes não estamos pronto para algo fascinante. E eu não estava pronto para os Libertines. Baixei o disco, meio que na onda, mas só escutava a mesma música. Era normal, interessante, dançante, divertida. Dava pra ficar feliz. Mas quando ela acabava, você já perguntava “qual a próxima banda?”. Maldição do pós-hacienda, quando o DJ substituiu as bandas. E eu reclamo como se estivesse lá em Londres, vendo o New Order se dar muito mal.
Só despertei para o Libertines em 2005. Quando decidi largar a MP3 e passar a comprar discos. Comprei o “The Libertines” numa promoção da Trama. Vinha eles, Nação Zumbi e Interpol. Comprei mesmo por eles.
Fiquel mal, como falam na giria. Não escutava um disco tão bom assim fazia tempo. Para mim, o Libertines são um grito de desespero e sobrevivencia do rock mil anos depois da morte. São rapidos, agressivos e sexo, drogas e roquenrroll numa época de imagem. Figuras bonitas, estilosas, britanicas, engraçadas de ver, divertidas de ouvir. A música é diversão pura. Rapido, com a guitarra lá em cima, uma gaita fechando, letras que são uma delícia.
The Ha Ha Walls é uma música deste primeiro disco. Não lembro nem mais a ordem. É a melhor de todas. Começa com guitarras cansadas, acordes que se afogam por cima do outro, clima de fim. “If you get tired” vêm seguido do PAM PAM! “of just hanging around” PAM PAM!. É lindo. Parece que não dá para ficar melhor. Não é uma música dançante, não é nada realmente rock. Mas é Libertines, é a parte nova naquele resgate velho. “Pick up a guitar and spin a web of sound”. É a frase adolescente da história da humanidade.
Semana passada falei duas vezes dessa música. Uma delas tava bebado, na outra estava bem sério. Nas duas, fiz apenas para fazer pose. Falei do que fazia essa música tão boa. Quando a guitarra faz um “pampampampampam” em clima de encerrar. E Pete Doherty canta “I’ve being thieving / i stole the light from the dawn”. É quando o desafino casa perfeito com tudo que existe na música. O agudo dele cai, lá no fundo, “I’ve being thiiiiiiveng”. Parece certo. É viciante. Aliás, é maravilhoso encontrar o momento da música que vicia você. Este é o meu momento, deve ser o de muita gente.
Mas o desafino de Pete não é a unica coisa que sai da minha cabeça nesses dias.
As divas que cantaram o Brasil
Foi minha primeira matéria publicada na Folha. Não está entre minhas favoritas, mas é histórica
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Tem quem estranhe e até ache ruim a fama exótica que o carnaval recebe pelos turistas. Mas não fazem idéia de como a imagem do Brasil era muito mais pobre até que Carmen Miranda deixasse o medo de lado e, em 1939, subisse no navio Uruguai com destino aos Estados Unidos. Por lá, o som tupiniquim ainda tinha a cara de Pixinguinha e os Batutas. Tocava com modéstia nos centros de alta cultura, até que de repente Carmen vira um estouro na Broadway. Com uma cesta enorme de frutas na cabeça, cores gritantes, cantando aos quatro cantos que era carnaval.
Nossa primeira diva não poupou brilho e virou logo um ícone internacional. No cinema, um dos seus últimos filmes traduzia a nova imagem do Brasil. Em uma cena super surreal de “Romance Carioca”, a mocinha apressa a mãe dizendo “vamos, que o carnaval começa daqui a pouco” e, não bastasse a festa ter hora marcada para chegar nas ruas, da sacada elas se divertem vendo bonecos de elefantes no lugar dos carros alegóricos. As músicas “Mamãe Eu Quero”, O que é que a Baiana Tem?” e Chic Chica Bom” podem não ser obras trabalhadas, mas foram os primeiros hits femininos do País. Depois dela, a adoração feminina passou a ir muito além da voz no rádio.
Com o estouro cultural que foi na época – principalmente os festivais da MPB e o surgimento da Bossa Nova – as divas vieram de monte. Elza Soares, Elis Regina e Nara Leão ditaram absolutamente tudo na época de maneira bem natural. Bastaram aparecer na televisão para que o Brasil soubesse o que vestir e dizer. Cada uma foi reflexo das várias situações da mulher brasileira na época. Elza, filha de lavadeira e operário, foi mãe aos 12 anos e viúva aos 18. Dois anos mais tarde fez a estréia nos palcos, com a mesma idade que Elis Regina ganhou o festival Fino da Bossa.
O choque entre as duas mostrava bem a situação entre a classe média e baixa da época. Elis vinha de situação melhor e conseguiu muito mais estratégia para sua entrada na música. Foi a primeira artista brasileira a registrar a voz como instrumento na Ordem dos Músicos e anunciou no palco a estréia de ninguém menos que Chico Buarque. Elas abriram o tapete vermelho para as divas do país e, ainda hoje, são parâmetro em qualidade de música, comportamento e fama.
O Recife não ficou de fora dessa época. Por aqui, os programas de auditório nas rádios também lançaram nossas primeiras cantoras. Nomes como o de Nádia Maria foram responsáveis por lotar os estúdios de pessoas que faziam de tudo para ficar um pouco mais perto da diva que, ainda hoje, tem passagem pelos palcos da cidade.
Publicado originalmente no dia 07 de março de 2005
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